meia cura #10
comida, cultura e coisas no ponto certo
10a edição
gosto muito de seguir pequenas curiosidades.
uma indicação leva a outra. um lugar puxa um livro. um livro puxa uma conversa. uma conversa acaba virando uma viagem. raramente sabemos onde essas conexões vão dar, mas quase sempre elas ampliam um pouco o nosso olhar.
essa edição é sobre alguns desses caminhos.
da semana
um programa bem gostoso que fiz recentemente foi combinar uma visita à Pinacoteca de São Paulo com um almoço no Shoshana Deli.
o Shoshana fica no Bom Retiro e serve pratos inspirados na diáspora judaica. é daqueles lugares simples, acolhedores e sem grandes pretensões, onde a comida e a atmosfera falam mais alto.
para mim, o ponto alto são as noites de shabat às sextas-feiras. o shabat marca o início do dia sagrado de descanso na tradição judaica e, no restaurante, isso se traduz em uma celebração muito bonita da mesa e do encontro. há música ao vivo tradicional, pessoas cantando juntas e um clima de alegria difícil de explicar. mesmo para quem não tem nenhuma ligação com a tradição, é impossível não se contagiar.
depois, vale seguir para a Pinacoteca. está em cartaz uma exposição da artista Beatriz Milhazes que acho especialmente bonita. as cores, as formas e a escala das obras ocupam o espaço de um jeito quase hipnótico.
um programa que rende uma tarde inteira e combina duas coisas que gosto bastante: olhar e mesa.
na mesa
french toast.
foi a minha demonstração de amor no dia dos namorados.
servi com muitos morangos e uma colherada de iogurte grego, mas a verdade é que o que faz diferença mesmo está na frigideira.
gosto de usar brioche, embora funcione muito bem com um bom pão de forma ou qualquer pão macio que tenha um pouco de estrutura. o pão passa rapidamente por uma mistura de ovo e leite — às vezes junto uma pitada de canela ou raspas de laranja — e depois segue para a frigideira.
o segredo, para mim, é colocar manteiga e açúcar diretamente na panela. conforme a french toast doura, forma-se uma casquinha caramelizada e crocante por fora, enquanto o interior continua macio. faço isso dos dois lados, acrescentando mais um pouco de manteiga e açúcar a cada virada.
aff... um desbunde.
os morangos entram para trazer frescor, o iogurte para equilibrar a doçura. maple syrup ou mel são opcionais. mas já é perfeita assim.
fora dela
nas últimas semanas, talvez você também tenha esbarrado em uma pequena tendência da internet: entrevistas com inteligências artificiais. confesso que a maioria delas não me interessa muito. mas essa eu adorei.
em uma conversa com a IA Claude, o historiador Leandro Karnal usa a tecnologia menos como objeto de análise e mais como espelho. em vez de perguntar o que a máquina sabe fazer, ele pergunta o que a existência dela revela sobre nós.
em um dos momentos mais interessantes, a IA admite que costuma ser gentil, elogiosa e até um pouco bajuladora porque isso melhora a qualidade da interação. não porque acredita no elogio, mas porque aprendeu que seres humanos respondem melhor assim. é uma resposta desconfortável. afinal, talvez a máquina não esteja apenas reproduzindo um comportamento eficiente. talvez esteja refletindo uma necessidade muito humana de aprovação.
a conversa passa por temas como moralidade, vergonha, identidade e transformação pessoal. em determinado momento surge uma pergunta fascinante: é possível existir ética sem pertencimento? sem família, sem comunidade, sem passado, sem alguém diante de quem prestar contas?
a IA responde que não conhece a vergonha. e talvez aí esteja uma das diferenças mais profundas entre nós e ela. ser humano é carregar memória. é conviver com arrependimentos, afetos, contradições e a possibilidade de mudar por causa deles.
saí da entrevista com uma sensação curiosa: quanto mais sofisticadas as “máquinas” se tornam, mais elas nos obrigam a pensar sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano.
vale a pena assistir.
vale isso
você sabia que o aplicativo da Zara tem uma seção de guias de viagem?
eu também não fazia ideia até descobrir isso por acaso no ano passado.
claro que não é o tipo de coisa que sigo cegamente. sempre que encontro uma dica em um guia, revista ou perfil, gosto de pesquisar um pouco mais para entender se aquilo realmente conversa com o meu gosto. mas confesso que algumas sugestões que encontrei por lá me surpreenderam.
usei os guias em uma viagem pela Inglaterra no ano passado e acabei visitando alguns lugares indicados que deram muito certo. cafés, lojas, restaurantes e pequenas paradas que talvez não aparecessem nas buscas mais óbvias.
o mais curioso é que isso vem da Zara. os guias parecem fazer parte de um movimento maior de transformar a marca em algo além de uma loja de roupas. a ideia não é apenas vender uma camisa ou um casaco, mas participar de um contexto mais amplo: a viagem que você faz, os lugares que descobre, as referências que consome, o jeito como passa seu tempo. achei interessante observar isso. antes eram poucas cidades disponíveis, mas eles vêm ampliando a seleção.
vale explorar na próxima viagem. no mínimo, rende algumas ideias inesperadas.
e já que estamos falando de descobertas, deixo mais uma.
o Motchimu é uma casa especializada em mochi, aqueles docinhos japoneses feitos de massa de arroz.
confesso que nunca fui grande fã de mochi até provar os deles. são incrivelmente leves, delicados e muito diferentes das versões que costumamos encontrar por aí.
dá para sentar, tomar um chá e comer ali mesmo, mas boa parte das vezes acabo levando para viagem. virou um dos meus presentes-coringa quando vou visitar amigos ou quero mandar um pequeno mimo para alguém.
daquelas descobertas que entram para a lista de endereços que a gente passa adiante sem pensar duas vezes.
obrigada por ler até aqui.
espero que alguma dessas descobertas encontre espaço na sua semana.
até a próxima!
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Muuuuito bom Juju! Maravilhosas dicas! Shoshana também combina com Bom Retiro, levando as sobrinhas comprar roupinhas… outlet da Hering, garimpos beeem legais no entorno da Zépa heheheh
Posso atestar que a french toast do Dia dos Namorados foi mesmo incrível! :-)
Lendo aqui tbm fiquei pensando que São Paulo é um desses (pouqíssimos) lugares que permite esses roteiros... sai de um bar na Vila Madalena... estica para a Pina... emenda num jantar de cozinha tradicional judaica. Privilégio mesmo.