meia cura #4
comida, cultura e coisas no ponto certo
4a edição
às vezes é só prestar um pouco mais de atenção.
no que está na feira, no que toca sem querer, no lugar que a gente volta — não porque é novo, mas porque continua fazendo sentido.
essa edição vai meio por aí.
da semana
bh.
tem as mineirices clássicas, claro. mas, como eu cresci lá, algumas coisas me pegam diferente — seja por memória afetiva, seja por ter normalizado demais o óbvio e acabar buscando outras camadas.
um lugar que nunca sai do roteiro:
Inhotim.
é meio incontornável. se for, separa pelo menos um dia inteiro.
eu vou sempre que posso — e nunca é igual. você revisita obras, entra de novo nas galerias, mas sempre tem coisa nova acontecendo. exposições mudam, pavilhões surgem. o jardim também é parte da experiência, não é só cenário.
acho que é um dos museus mais incríveis que já visitei.
em bh, tem um clássico que eu não abro mão:
Restaurante Macau.
mais de 50 anos, zero frescura. vou desde pequena — com meus pais, depois com amigos, e continuo indo sempre que volto.
é aquele tipo de lugar que não tenta ser nada além do que é. comida boa, farta, barata. mesa grande, clima direto. bem chinês.
o rolinho primavera virou quase uma instituição pessoal. o macarrão frito eu sempre peço também — mas, no geral, é difícil errar. e tem uma sopa de pimenta e vinagre que vale muito também
no Mercado Central de Belo Horizonte, que é clássico, eu gosto de ir no simples.
compro queijo na Loja do Itamar — canastra, são roque, esses mais jovens, ainda pouco curados. nada muito elaborado, mas bons.
se a ideia for aprofundar um pouco mais, aí vale ir na Roça Capital, que tem uma seleção mais completa, mais bem pensada de queijos mineiros.
na mesa
caqui.
é época. e dá pra ver — feira e mercado viram quase um degradê de vermelho alaranjado. bonito mesmo.
eu tenho gostado de sair do lugar mais óbvio da fruta. pegar o caqui fuyu, que é mais firme, mas ainda assim muito doce, e levar pra outros caminhos.
tenho feito uma salada que funciona muito bem: fatias bem finas de caqui, quase transparentes, com uma salsa meio ácida por cima — picles de pepino, cebola roxa, pimenta dedo-de-moça, salsinha, vinagre, azeite bom e umas anchovas picadinhas.
fica um contraste bom. doce, ácido, salgado. macio e crocante.
também fiz uma compota simples pra ir usando no café da manhã, ou pra acompanhar um bolinho mais leve, tipo chiffon.
e tem uma coisa que eu tenho repetido bastante: caqui in natura com iogurte natural e sementes de abóbora tostadas com mel
fora dela
eu gosto muito de descobrir música nova.
coisa de outro lugar, outro tempo, artista que eu nunca teria chegado sozinha. o algoritmo, nesse caso, é uma belezura.
adoro criar uma “rádio” a partir de uma música e deixar o Spotify ir levando. ele vai abrindo caminhos.
um achado recente: Way You Walk, do Papas Fritas. leve, meio solar, dessas que você deixa tocar e, quando vê, já está balançando a abeça e os ombrinhos.
mas, na contramão disso tudo, eu sinto falta de ouvir um álbum inteiro.
ninguém mais ouve um álbum inteiro.
isso meio que se perdeu com o streaming. a gente pula, salva, monta playlist — mas raramente senta pra ouvir uma obra do começo ao fim, na ordem pensada.
eu tenho um toca-discos em casa e ele resgata isso.
tem um gesto ali. pegar o disco, olhar a capa (quase sempre muito bem pensada), abrir o encarte, entender um pouco daquele universo. a sequência das músicas faz sentido, tem ritmo, tem construção.
muita gente fala da qualidade do som analógico, mais “apurado”. eu nem sei se tenho esse ouvido todo — mas a contemplação, isso sim, muda tudo.
o disco da semana foi Dreams, do Gábor Szabó.
me arrisco a dizer que é um dos meus favoritos da coleção. tem uma coisa meio hipnótica, meio fora do tempo. funciona inteiro. como deve ser.
vale isso
geleia de cupuaçu da Mantiqueira Bela.
as geleias deles, no geral, são muito boas. mas essa, pra mim, destaca.
tem aquele ácido do cupuaçu que segura o doce e deixa tudo mais interessante. não fica enjoativa, nem óbvia.
eu tenho usado no café da manhã — com pão mais neutro e/ou com queijo. funciona.
em são paulo, dá pra encontrar no @procecafezin e no @ourodasgerais. em bh, no @romapanetteria
vale ter um pote em casa.
no fim, talvez seja isso.
não é sobre novidade o tempo todo — mas sobre olhar de novo, com um pouco mais de intenção.
se chegou até aqui, obrigada por ler.
até a próxima!










adorei demais essa edição! Sabe que fui lendo aqui... no meu ritmo ... e me peguei fazendo uma conexão meio nerd :-) enquanto você falava do Gábor Szabó, lembrei do Sonic Pavilion (som da terra), do Doug Aitken, lá no Inhotim. Os dois têm essa coisa meio hipnótica, que relaxa, que vai te puxando pra um estado meio suspenso... como se o tempo desse uma alongada. Não sei bem explicar. O Szabó faz isso com a guitarra que paresse girar, e o Aitken com o som da terra vibrando lá do fundo. Enfim, só quis compartilhar porque achei bonito como seu texto abriu esse tipo de associação na minha cabeça. mais uma leitura gostosa.
Ju, valeu por compartilhar essas mineirices com tanto carinho e memória afetiva, faz toda diferença. Quero conhecer BH com vcs! 😊