meia cura #7
comida, cultura e coisas no ponto certo
7a edição
ultimamente tenho gostado muito das coisas que não tentam impressionar tanto.
comidas simples mas muito boas. passeios perto de casa. presentes pequenos, mas pensados. livros que falam baixo.
talvez porque exista um certo alívio nas coisas que não disputam atenção o tempo inteiro.
da semana
o tempo daqui pra frente tende a firmar: dias frescos, céu aberto, aquele sol bonito de inverno começando a aparecer. e, pra mim, essa é exatamente a época perfeita para subir a Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira.
a caminhada dá uns 6km ida e volta. tem subida? bastante. mas é aquele tipo de percurso que cada um faz no próprio ritmo. e vale muito a pena. lá de cima você vê São Paulo inteira se espalhando no horizonte. é uma vista que sempre me impressiona.
eu adoro levar alguns acepipes e transformar a parada lá em cima quase num pequeno piquenique. ficar ali olhando a cidade, pegando vento, lembrando que existe mata desse tamanho tão perto do concreto.
acho um passeio meio imperdível em São Paulo.
a entrada é pelo Horto Florestal. normalmente estaciono dentro, no portão 4 e sigo a pé até a entrada do núcleo Pedra Grande. vale comprar o ingresso online antes porque aí você só apresenta na entrada e evita fila.
e lá em cima até tem um café e uma estrutura super boa. mas, sinceramente, levar suas próprias coisinhas faz parte da graça.
na mesa
algum tempo atrás surgiu aquela onda das sobremesas com azeite, flor de sal, etc. muita coisa apareceu junto e, como todo hype, bastante coisa ficou pelo caminho. mas algumas combinações permaneceram por um bom motivo.
eu estou viciada numa sobremesa pá-pum. dessas que parecem improviso, mas entregam tudo.
vi essa ideia no NYT Cooking — que, aliás, é uma fonte de inspiração e receitas que eu adoro — tâmaras picadas, sorvete e, por cima, um fio de azeite bom e flor de sal. uso sal maldon.
a minha versão do momento leva o sorvete de chá verde tostado (hojicha) da Lida Padaria. fica uma coisa untuosa, fresca e meio viciante. a doçura profunda da tâmara com o amarguinho tostado do hojicha, o frio do sorvete e aquele toque salino no final.
sobremesa coringa de quem quer servir algo bonito sem exatamente “fazer” uma sobremesa.
repolho roxo talvez seja um dos ingredientes mais subestimados da feira. barato, dura muito e dá pra ir de conforto total até uma coisa mais fresca e vibrante. está na época.
do jeito mais simples, tenho feito bastante assado: corto em pedaços grandes, coloco na assadeira com azeite, sal e pimenta e deixo em forno bem quente até tostar as bordas. fica incrível. acompanha sopa, aquele kare japonês que falei outro dia, homus ou o PFão mesmo, sem esforço nenhum.
também adoro a versão salada crocante. faço numa pegada mais oriental: corto bem fino e tempero com nam pla (aquele molho de peixe Thai), limão, um pouco de açúcar, azeite (ou algum óleo mais neutro) e um pouco de água pra diluir caso fique intenso demais. aí vou colocando o que tiver: tomate, vagem, pepino… dá pra brincar bastante.
se tiver amendoim em casa, finalize tostado por cima.
fora dela
O Colibri é um daqueles livros que parecem pequenos por fora, mas vão crescendo por dentro conforme a leitura avança.
a história acompanha Marco Carrera, um oftalmologista apelidado de “colibri” desde criança por causa do seu tamanho. mas, ao longo do livro, o apelido vai ganhando outro peso - pela capacidade de permanecer parado no ar mesmo em meio ao caos. alguém que atravessa perdas, amores interrompidos, tragédias familiares e mudanças de época tentando manter algum tipo de equilíbrio emocional.
o livro vai e volta no tempo o tempo inteiro, costurado por cartas, mensagens, diálogos e memórias fragmentadas. mas tudo converge para essa tentativa profundamente humana de continuar existindo depois que a vida desmonta os planos.
o que torna o livro tão bonito nem é exatamente o enredo em si, mas a delicadeza com que ele fala sobre permanência. sobre pessoas que seguem vivendo mesmo sem grandes redenções. tem uma melancolia muito italiana ali, elegante, mas sem cair no sentimentalismo fácil. é um livro sobre luto, amor, família e resistência silenciosa.
e acho que o “colibri” do título fica ecoando justamente por isso: às vezes sobreviver já exige um esforço invisível e absurdo. Marco não é um herói grandioso. ele só continua. e nisso existe uma espécie de beleza triste.
vale isso
eu acho muito bonito visitar amigos em casa e levar algum pequeno regalo. não pela obrigação do presente em si, mas quando existe alguma conexão ali. quando a coisa conversa com o momento, com a comida, com a pessoa.
gosto muito das coisas da Il Casalingo. a curadoria tem uma pegada mais rústica, minimalista, natural, sem ficar “montadinha” demais. tudo parece ter textura, uso, vida.
semana passada comprei um pano de prato lindo lá para embrulhar um bolo que fiz. o pano virou quase parte do presente. e esse acabou sendo o mimo de casa nova de um casal de amigos.
acho muito mais especial quando o embrulho continua existindo depois.
sabia que a CEAGESP disponibiliza uma tabela com a sazonalidade de legumes, verduras, frutas e pescados ao longo do ano?
eu acho isso genuinamente útil. claro que, depois de um tempo frequentando feira e sacolão, você começa a perceber sozinho o que entrou na época — normalmente porque aparece bonito, abundante e barato ao mesmo tempo. mas ter essa referência ajuda muito.
tem coisa que muda completamente de sabor quando está na safra certa. além disso, ajuda a fazer uma feira mais inteligente: melhor frescor, melhor preço e menos aquela sensação de comprar tomate caro e sem gosto em pleno mês errado.
vou deixar o link aqui: sazonalidade dos produtos - ceagesp
acho que é isso.
pequenas obsessões, bons ingredientes, livros que ficam e alguns respiros no meio da cidade.
até a próxima.
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O repolho assado foi excelente lembrança. Vou fazer!
amei a dica da tabelinha de sazonalidade! <3