meia cura #8
comida, cultura e coisas no ponto certo
8a edição
acho bonito perceber como certas memórias acabam morando em coisas pequenas.
num guardanapo guardado da viagem. num arroz doce específico. numa música descoberta por acaso. num balcão pequeno escondido no meio da cidade.
da semana
ir ao japão sem sair de são paulo talvez seja uma das coisas mais especiais dessa cidade. não só pela comida, mas porque existem lugares que realmente conseguem transportar a gente um pouco para outro ritmo, outra atmosfera, outro jeito de ocupar o tempo. afinal, estamos falando da maior comunidade japonesa fora do japão no mundo.
um deles é um lugar minúsculo especializado em tempurá, escondido no fundo de uma galeria no térreo de um edifício na brigadeiro luís antônio. qual a chance?
o espaço tem um balcão em L de madeira escura, bem tradicional japonês, e talvez duas mesas — não lembro ao certo. a tiyoko e o marido tocam tudo sozinhos. abre só durante a semana e reserva é obrigatória, até porque o espaço é realmente pequeno e eles se organizam de acordo com o número de pessoas da noite.
o menu é servido em etapas. são 9 tempurás, sempre muito leves, delicados e surpreendentes. às vezes pela textura, às vezes pelo ingrediente, às vezes pelos dois. gosto especialmente da calma do lugar. quase silencioso. um pequeno intervalo no meio do caos.
o outro é o izakaya quito quito, da kaori, no jardim paulistano. ali a atmosfera já muda completamente. mais barulho, mais movimento, mais gente espremida esperando mesa. e vale a espera.
os pratos seguem uma linha bem tradicional japonesa, muito guiada pelo que está fresco no mercado no dia. é aquele tipo de lugar onde tudo parece simples, mas tudo é absolutamente muito bem executado. gosto de ir sem muita estratégia, pedir algumas coisas diferentes e ficar beliscando devagar.
na mesa
me aguentem porque chegou junho e eu amo comidinhas de festa junina.
começando pelo arroz doce. gosto muito da versão tres leches, servida com uma colher generosa de doce de leite. o arroz cozinha com baunilha e raspas de laranja e isso muda tudo. fica mais delicado, menos “sobremesa infantil de quermesse”, sabe?
mas amo também as versões mais clássicas. com canela, coco ralado, amendoim… acho reconfortante num nível quase absurdo.
agora precisamos normalizar duas coisas. talvez polêmicas, mas necessárias: não dá para fazer arroz doce com arroz agulhinha e leite condensado. desculpa.
o arroz arbóreo deixa a textura muito mais cremosa, quase sedosa. e trocar o leite condensado por açúcar faz você conseguir controlar melhor o dulçor. especialmente se for servir com doce de leite, paçoca ou qualquer outra coisa mais doce junto. fica mais leve, mais equilibrado e com mais gosto de arroz doce de verdade.
fora dela
o que você traz na mala das viagens?
cada vez mais, percebo que minha casa é quase uma coleção de pequenas memórias espalhadas. gosto de trazer coisas que acabam virando parte da vida cotidiana e não apenas “lembrancinhas”.
um guardanapo de papel de um bar em bangkok que emoldurei. um cardápio lindo e meio inusitado do meu bar de coquetéis favorito em lisboa. livros sobre a história do lugar, receitas típicas, catálogos de exposições, pequenas cerâmicas, papéis, cartões postais, caixas de fósforo.
acho bonito quando a casa vai contando histórias sem precisar explicar isso o tempo inteiro.
e gosto especialmente da ideia de que viagem não precisa virar consumo de luxo ou compra grandiosa. às vezes, um papel que normalmente iria para o lixo consegue carregar muito mais memória do que qualquer objeto caro.
no fim, tudo isso vai deixando a casa mais viva, mais pessoal e mais aconchegante também.
vale isso
o livro “como cozinhar sua preguiça”, da gabriela barretto — a mesma do arroz doce ali de cima.
gosto muito do jeito que ela cozinha. tem uma simplicidade muito inteligente, sem ficar performando minimalismo ou “cozinha afetiva” o tempo inteiro.
são receitas e processos descomplicados, mas que conseguem extrair muito sabor dos ingredientes. aquela comida que parece simples até você perceber que tem bastante técnica e sensibilidade escondidas ali.
é o tipo de livro que vai ficar aberto na cozinha, meio bagunçado, cheio de marcação e respingo de molho.
pra quem gosta de vinil e música boa, seguir o perfil @myllck é um deleite.
pai e filho, direto de singapura, compartilhando uma curadoria muito boa de discos, prensagens, descobertas e pequenas obsessões musicais.
é um ótimo lugar para descobrir coisas novas, revisitar álbuns esquecidos e sair um pouco do algoritmo — que às vezes é ótimo, mas também pode acabar deixando tudo meio previsível.
até semana que vem!
e origada por ler até aqui.
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Ótimo texto, como sempre! Apreciei a leitura com um cafezinho em um lugar bem especial. Combinou perfeitamente! Fiquei com vontade de experimentar essa “versão” do arroz doce….e essa leitura para cozinhar a preguiça…com intenção e sutilezas.
Ju, cada edição do Meia Cura me faz sentir como se estivesse tomando um café com uma amiga que tem o dom de encontrar poesia nas coisas simples da vida. 💛
Adorei especialmente essa mistura de temas que, à primeira vista, parecem tão diferentes, mas que no fim se conectam de um jeito tão leve: as festas juninas, o olhar sobre o arroz três leches com doce de leite....
A Sensação deliciosa de estar em São Paulo e, por alguns instantes, se sentir no Japão, Coreia do Sul, China...
Talvez por isso eu ame tanto passear pela Liberdade e pelo Bom Retiro.
Depois de falar de pamonha, agora você tem a responsabilidade de trazer aquela versão rápida e prática que faz em casa para as leitoras do Meia Cura. Acho que seria um sucesso!
Parabéns pelo projeto e por toda a dedicação que você tem colocado nele. Dá para sentir o carinho em cada texto. Você está arrasando e tornando as leituras do dia muito mais leves, acolhedoras e inspiradoras. ✨🌽💛