meia cura #9
comida, cultura e coisas no ponto certo
9a edição
às vezes a gente fala de repertório como se ele fosse construído apenas pelas grandes experiências.
uma viagem distante, um livro importante, uma obra que muda a forma de ver o mundo.
mas tenho a impressão de que ele também nasce das pequenas curiosidades. de prestar atenção. de seguir um assunto até o fim. de se deixar tocar por algo sem precisar entender exatamente por quê.
da semana
você já visitou alguma chapada no brasil?
recentemente conheci o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e voltei impressionada. é daqueles lugares que fazem a gente se perguntar por que demorou tanto para ir.
o que mais gostei foi perceber como é uma viagem simples de fazer. funciona muito bem para um feriado prolongado, não exige grande planejamento e atende praticamente qualquer nível de preparo físico. há trilhas para todos os ritmos, cachoeiras, paredões e vistas que parecem não terminar.
o cerrado da região também me chamou muita atenção. a fauna e a flora são riquíssimas e é difícil não sair de lá com mais admiração por um bioma que, muitas vezes, recebe menos atenção do que merece. não por acaso, o cerrado é conhecido como a caixa-d’água do brasil: dali nascem rios e bacias que abastecem grande parte do país.
o acesso também ajuda. os voos para cuiabá costumam ser diretos saindo de muitas capitais, e do aeroporto até a chapada são cerca de quarenta minutos de carro.
ficamos na Pousada do Parque, praticamente dentro da área do parque, o que transforma a experiência. o único barulho ao acordar é o dos pássaros cantando, cedo!
talvez porque passar alguns dias na natureza continue sendo uma das formas mais eficientes que conheço de reorganizar a cabeça. não resolve tudo, mas ajuda a colocar as coisas em perspectiva.
na mesa
missô é uma daquelas coisas que parecem ocupar um espaço muito específico na cozinha, mas que, quando entram na sua rotina, começam a aparecer em lugares inesperados.
para quem não conhece, é uma pasta salgada e cheia de umami feita a partir da fermentação de grãos e leguminosas. no ano passado, fiz um curso de fermentação com koji e preparei meu próprio missô. no meu caso, usando feijão preto.
depois de muitos meses esperando o tempo fazer o trabalho dele, a pasta finalmente ficou pronta. empolgação absoluta.
tenho usado missô em praticamente qualquer refeição do dia. nos ovos fritos do café da manhã, em marinadas para peixes com saquê, em molhos, legumes assados e até na sobremesa. esta semana fiz um pudim de leite com missô na calda de caramelo, o que trouxe um toque levemente salgado e umami que ficou incrível.
mas a verdade é que não estou aqui para convencer ninguém a colocar missô em tudo.
o que acho interessante é como alguns ingredientes nos ajudam a enxergar novas possibilidades. quando a gente começa a pensar além do doce e salgado, e passa a brincar também com acidez, textura, amargor e umami, a cozinha fica muito mais divertida.
os mocktails — ou drinks sem álcool — nunca estiveram tão em alta. e sinceramente? acho ótimo. gosto da ideia de beber alguma coisa interessante sem que tudo precise necessariamente passar pelo álcool.
ano passado, em manchester, aprendi uma versão muito simples com um bartender que nos atendia no balcão de um restaurante. eu via ele colocando angostura em alguns copos e não estava entendendo nada. afinal, ele estava trabalhando.
quando perguntei, a resposta era quase decepcionante de tão simples: água com gás, bastante gelo, limão e algumas gotas de bitter.
só.
mas funciona. fica amargo, cítrico, refrescante e tem aquela sensação de ritual de drink bem feito, mesmo sendo algo completamente descomplicado.
uma pequena variação colocando um ou dois cubinhos de açúcar no fundo do copo e pingando o bitter diretamente neles antes de completar com a água com gás vira uma opção para uma versão mais docinha.
meio old school. meio chique. muito bom.
fora dela
ganhei Persépolis há muitos anos do meu amigo Leo, um aficionado por HQs com um gosto que considero praticamente infalível. foi um daqueles livros que ficaram comigo.
Marjane Satrapi conta sua infância e juventude no Irã durante a Revolução Islâmica. o que sempre me impressionou na obra é a forma como ela aproxima uma realidade que, para muitos de nós, parece distante. em meio ao medo, à guerra e ao avanço do autoritarismo, ela fala de música, moda, adolescência e descobertas. usa nike, ouve punk, questiona regras, tenta entender o mundo. tudo isso enquanto vê seu país mudar radicalmente ao seu redor.
é um livro que fala sobre liberdade, emancipação feminina e poder, mas sem nunca soar como uma tese. a história acontece através da vida comum. talvez por isso continue tão atual.
mas o que me trouxe de volta a Persépolis esta semana foi a notícia da morte de Marjane. sua família anunciou que ela morreu de tristeza, pouco mais de um ano após perder o marido, Mattias Ripa, o amor da sua vida.
é uma frase que me pegou profundamente.
porque, ao mesmo tempo em que há algo de devastador nela, existe também algo bonito. quase uma evidência de que algumas pessoas conseguem amar de forma tão inteira que a ausência muda tudo.
não sei explicar muito bem. só sei que, desde que li essa notícia, venho pensando nela.
vale isso
no clima do amor — afinal, o dia dos namorados está logo aí — minha dica é o kit especial da Crime Pastry para a data.
e tudo bem se você não for comemorar. nesse caso, melhor ainda: aproveite a desculpa e fique com os doces todos para você.
a Crime é, sem exagero, uma das melhores confeitarias da cidade. daquelas que conseguem fazer sobremesas bonitas e realmente gostosas, sem depender só da estética.
de quebra, ainda está rolando o menu especial de festas juninas.
não sei lidar.
obrigada por chegar até aqui.
se alguma dessas histórias, lugares, sabores ou ideias encontrou eco por aí, já valeu a semana.
até a próxima!
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Persépolis é ótimo! Tive poucas oportunidades de conviver com a cultura muçulmana (a maioria das vezes foi profissionalmente apenas) e este livro me trouxe uma perspectiva nova e emocionante. Fiquei feliz quando soube que a Júlia gostou do livro!
Amo o Meio Cura! Presente para todos nós. Concordo com você que no Crime é bonito e gostoso,