meia cura #6
comida, cultura e coisas no ponto certo
6a edição
acho que existe um tipo de repertório que a gente constrói sem perceber.
não exatamente de referências ou informação — mas de sensibilidades.
coisas que vão moldando silenciosamente nosso jeito de olhar, cozinhar, conversar, habitar os espaços e lembrar dos momentos.
da semana
essa semana visitei o Galpão da Lapa.
o espaço funciona dentro de um galpão histórico do complexo do CEAGESP — construído no século XIX e usado antigamente para armazenamento de café.
só o espaço já faz parte da experiência. existe algo muito improvável — e justamente por isso especial — em encontrar um acervo de arte desse porte dentro de um antigo galpão industrial no CEAGESP. o contraste funciona muito bem.
o galpão abriga a coleção de Andrea e José Olympio da Veiga Pereira e funciona a partir de exposições de longa duração com curadores convidados. gosto especialmente da ideia de que a curadoria não tenta impor uma narrativa rígida às obras. existe mais escuta do que tese.
a exposição atual, Constelação em trânsito: uma escuta cartográfica, parte justamente disso: deixar que os próprios trabalhos revelem aproximações, tensões e caminhos possíveis. as obras vão se agrupando quase como conversas.
a mostra reúne trabalhos de mais de 60 artistas brasileiros — entre eles Adriana Varejão, Amelia Toledo, Claudia Andujar e Odires Mlászho, que acabou sendo meu favorito da visita.
a experiência fica ainda melhor porque a visita é guiada. muda completamente a relação com as obras quando alguém ajuda a costurar os percursos e os atravessamentos entre elas.
a entrada é gratuita, mas precisa agendar antes pelo site do espaço. a exposição fica em cartaz até março de 2027.
sou muito fã de café da manhã.
apesar de fazer quase sempre os meus em casa (quem me acompanha no instagram sabe), eu adoro lugares que realmente tratam o café da manhã como experiência — não só um café apressado com pão na chapa.
esses dias fui ao Mirá com uma amiga e passamos quase duas horas entre cafés, conversa e pequenos pratos.
durante a semana o lugar fica mais tranquilo, o que deixa tudo ainda melhor.
tudo é feito ali mesmo e existe um trabalho forte de fermentação natural e koji atravessando o menu inteiro. tem um toque japonês delicado em tudo, sem virar gimmick.
o ambiente é muito bonito: minimalista, claro, acolhedor. luz da manhã entrando pelas janelas, pé-direito duplo, mezanino, madeira clara, norens pendurados.
meu pedido quase sempre inclui o pan tumaca com ovos mexidos à parte. o tuna spicy e os ovos beneditinos também são ótimos. e, se ainda existir espaço, vale pedir algum croissant doce da vitrine — normalmente é impossível errar.
e mesmo para quem não está em São Paulo, acho o Mirá interessante como referência. às vezes vale entrar no menu, olhar as fotos, observar combinações e ideias. um jeito diferente de fazer ovos, um ingrediente inesperado, um detalhe pequeno. repertório também se constrói assim.
na mesa
vos no café da manhã, almoço ou jantar. o ovo talvez seja o ingrediente mais coringa que existe.
naturalmente, ele reina nos cafés da manhã — e por aqui eu praticamente nunca faço do mesmo jeito dois dias seguidos.
acho que a primeira coisa é normalizar que ovos mexidos devem ser cremosos. não dá para aceitar aquela coisa seca, quebradiça e meio bicolor.
eu bato bem os ovos numa tigela com garfo ou fouet, coloco uma boa quantidade de manteiga numa frigideira antiaderente (quanto mais manteiga, mais cremoso fica… risos), fogo baixo e vou mexendo sem parar.
o segredo é tirar antes da hora que parece certa.
quando você jurar que ainda falta um pouco, provavelmente já está pronto. desligue o fogo ainda molhadinho e continue mexendo. o calor residual termina o trabalho.
gosto de servir com pão quente, parmesão ralado, cebolinha picada ou um pouco de chilli oil quando quero uma versão mais animada.
outro hit absoluto aqui em casa: ovos moles para comer de colher.
água fervendo, 4 minutos e meio. se o ovo estiver muito gelado, pode deixar uns 5 minutos. pão do lado obrigatoriamente.
eu adoro montar um prato meio café da manhã alemão — ou escandinavo. distribuo no prato o ovo no suporte, uma geleia boa, um pedaço de queijo, algum picles, salmão defumado ou embutido e pão.
fica lindo, simples e muito gostoso.
às vezes acho que repertório na cozinha também nasce assim: aprendendo pequenas formas diferentes de fazer a mesma coisa de sempre.
fora dela
“A Vida Secreta de Walter Mitty”
tem uma cena que volta na minha cabeça de tempos em tempos.
o personagem do Sean Penn é um fotógrafo que passou a vida inteira atrás de imagens raras. ele está há dias esperando o momento perfeito para fotografar um leopardo-das-neves.
quando o animal finalmente aparece… ele não tira a foto.
ele só observa.
e explica, de um jeito muito simples: às vezes, quando o momento é realmente especial, ele prefere não interferir.
prefere viver.
é uma ideia meio incômoda.
porque a gente passa o tempo inteiro tentando registrar, guardar, transformar tudo em alguma coisa — foto, vídeo, lembrança organizada.
e talvez nem tudo precise disso.
talvez algumas coisas sejam melhores quando ficam só ali, acontecendo.
vale isso
falando em ovos… um item absolutamente essencial na cozinha: cortador de ovos.
hahaha sério.
eu uso muito para os meus ovinhos cozidos e realmente muda a experiência. fica bonito, uniforme, rapidinho e dá até mais vontade de montar um prato caprichado.
é aquela categoria de objeto simples que parece meio inútil… até você começar a usar.
só procurar por “cortador de ovos” em qualquer marketplace. tem vários modelos e todos resolvem bem a vida.
acho que a vida boa mora muito nesses pequenos repertórios que vamos acumulando sem perceber.
obrigada por ler até aqui
até a próxima!








Certos filmes me marcaram muito na vida… nao sei exatamente o porque. Walter Mitty, Into the Wild, Wild... Acho tenho algo com histórias de pessoas tentando sair um pouco da vida excessivamente organizada, registrada e controlada… para simplesmente viver alguma coisa de verdade.
esse trecho do Walter Mitty sempre volta na minha cabeça de tempos em tempos tbm. Talvez algumas coisas sejam melhores quando ficam só ali… acontecendo.
Achei esse Meia Cura especial ❤️
Simplesmente adorei esse Meia Cura.