meia cura
comida, cultura e coisas no ponto certo
5a edição
tem semanas que parecem um pouco mais carregadas de significado.
umas coisas acabam, outras começam a aparecer de novo — e no meio disso tudo, a gente vai ajustando o jeito de consumir, de cozinhar, de escutar.
essa edição ficou meio assim.
da semana
a Rádio Eldorado encerra as atividades essa semana, dia 14, quinta-feira.
e eu já estou me sentindo meio órfã.
são 68 anos no ar — mas pra mim ela sempre foi mais íntima do que isso. era a rádio que meus pais ouviam. aquela que entrava no carro quase como um marco geográfico: chegando perto de São Paulo (partíamos de BH), a sintonia vinha junto.
e ficou.
a Eldorado sempre teve uma coisa rara: curadoria de verdade. não era só música — era escolha, repertório, alguém pensando.
programas que viraram hábito, quase companhia:
o Trip FM, com as entrevistas do Paulo Lima.
o Chocolate Quente, da Paula Lima.
o Back to Black, do Sérgio Scarpelli.
o Navega, da Baba Vaccaro.
o Minha Canção, da Sarah Oliveira…
o Fim de Tarde - “sua revista sonora”, com Emanuel Bomfim e Leandro Cacocci
é o fim de um capítulo importante — de São Paulo, mas também de um jeito de consumir cultura.
rádio assim está sumindo mesmo.
acho que o gesto agora é outro: seguir essas vozes fora dali. procurar os programas no spotify, acompanhar quem você gostava nas redes.
mas não é a mesma coisa.
na contramão — ou talvez nem tão na contramão assim — os cinemas de rua estão voltando a aparecer. devagar, mas com intenção.
o Cine Sala, na Fradique Coutinho, é um bom exemplo disso. gosto especialmente dos sofás ali na frente, da escala mais íntima, da sensação de que alguém pensou aquele espaço pra ser mais do que só um lugar de passar filme.
a curadoria costuma ser boa. e tem um detalhe que eu sempre acho importante: você pode levar a experiência um pouco além. pipoca ou um drink do Barouche — e pronto, já virou programa.
desses que continuam depois. quase sempre, eu emendo no Tan Tan. virou escolha automática.
a parte boa: isso não está isolado.
a vila madalena deve ganhar ainda esse ano o Cine Tutu, na rua girassol. pequeno, de rua, com cara de bairro.
e talvez o mais simbólico: o Cine Copan vai reabrir depois de quatro décadas fechado. as obras já começaram e a previsão é 2027.
tem algo aí que não é só sobre cinema.
é sobre voltar a ocupar a cidade de um jeito mais presente.
na mesa
aberta a temporada de comidas quentinhas.
caiu a temperatura e eu já mandei um karê pro fogão.
é meio imbatível — porque é simples e entrega muito. se você tiver cebola, alho, uma cenoura e batata, já vai ser feliz.
refogo bem a cebola e o alho, entro com a cenoura e a batata em pedaços maiores, e aí o curry — coloco umas duas colheres de sopa, sem muita timidez.
cubro com caldo (legumes, frango, o que tiver) ou água mesmo e deixo cozinhar sem pressa, até tudo ficar macio e o caldo mais encorpado.
sirvo com gohan. e pronto.
quando estou mais animada, faço uma berinjela empanada junto. crocante por fora, macia por dentro. meio exagero, talvez.
mas é aquele tipo de exagero que faz sentido no frio.
aliás, um tema menos mesa, mais despensa.
eu brinco que tenho uma “despensa mágica”.
porque estou sempre fazendo coisas que parecem mais complexas do que realmente são — e quase sempre é só combinação do que já está ali.
pra quem quiser começar a brincar com comida japonesa em casa (não sushi), uma base resolve muita coisa:
shoyu, mirin, missô, dashi, vinagre de arroz, saquê, óleo de gergelim.
não precisa ter tudo de uma vez.
o dashi (caldo base, bem umami) dá pra fazer do zero (com kombu e katsuobushi), ou começar com Hondashi.
eu gosto mesmo é de ter o katsuobushi em casa.
já usei até finalizando ovo mexido - tem um defumadinho.
e tem um detalhe que eu adoro: quando você coloca por cima de uma comida quente, as raspas começam a “se mexer”.
é só o vapor. mas parece que estão vivas.
fora dela
playlists.
eu gosto muito de fazer.
quase como montar uma mesa — você vai escolhendo o que entra, o que fica de fora, o ritmo, o tempo. faço pra viagens (principalmente aquelas com estrada), pra receber amigos, pra um almoço de domingo.
e nunca é só sobre música.
é sobre tentar traduzir um clima. o que aquela viagem parece, e como isso vira som.
óbvio: é completamente pessoal.
inclusive, um pequeno teste: tenta buscar “músicas matinais” ou “manhã feliz” em qualquer streaming. dificilmente vai bater com o que você imaginou. porque esse tal de “mood” não é tão universal quanto parece.
e foi por isso que eu achei curioso quando a Barilla lançou umas playlists pensadas no tempo de cozimento da massa.
tipo:
Absolute Carbonara
Best Song Penne
Simply Classics Linguine
todas com a duração exata pra você dar o ponto.
é meio gimmick, claro.
mas ao mesmo tempo tem uma ideia boa aí — usar o tempo como medida do som. quase como um timer mais interessante.
vale dar uma espiada no Spotify depois.
nem tanto pelas músicas.
mais pela lógica.
vale isso
se a ideia é montar essa despensa, alguns lugares ajudam muito:
a Casa Bueno, na liberdade — boa variedade, entrega durante a semana, dá pra pedir por whatsapp ou pelo site.
a Towa — que você acha também coisas mais específicas, principalmente tailandesas e chinesas.
e a Otugui, no bom retiro — foco em produtos coreanos.
todos atendem por whatsapp.
o que, no fim, facilita — e faz você cozinhar mais.
acho que no fim é isso — ir juntando referências, gostos, pequenas obsessões.
e deixando elas aparecerem no dia a dia.
até a próxima.
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Ju, adorei essa 5a edição! 😊. E ja bate uma nostalgia da Eldorado… Vontade de descer pra praia na sexta a noite ouvindo o Paulo Lima… acho que só vc vai entender. Engraçado como algo assim pode marcar tanto… lembro da entrevista do Marcelo Gleiser (mais recente, acho q foi 2023) e de uma antigona do Washington Olivetto. Vai fazer falta . Valeu!
Muito orfa! Adorei a edição amiga